Porto, Gaia, Matosinhos — dez sítios onde a francesinha é uma coisa séria. Sem ordem de preferência, com opinião própria.
Não existe consenso sobre a melhor francesinha do Porto. Nunca existiu, nunca vai existir. É um prato que as pessoas definem numa fase da vida e defendem para sempre, com a convicção de quem foi lá mais vezes do que recorda.
A minha primeira foi no Requinte, em Matosinhos. Tinha uns 14 ou 15 anos, fui com uns amigos da escola, e não estava preparado para aquele molho. Picante, denso, quente a sério. Fiquei uns segundos sem perceber bem o que tinha acontecido. Depois pedi outra garfada.
Esta lista não é um ranking. São os sítios que conheço, que continuo a frequentar, e que recomendo quando os meus hóspedes me perguntam onde ir. Se só tiverem tempo para um, escolham o que vos despertar mais curiosidade. A discussão sobre francesinhas dura anos, não um fim de semana.
Uma francesinha é um sandes de carne — linguiça, salsicha fresca, fiambre, bife de vitela ou vaca — montada entre duas fatias de pão de forma, coberta de queijo derretido e inundada de um molho quente à base de tomate, cerveja e especiarias. Frequentemente leva um ovo estrelado por cima. Vem sempre com batatas fritas.
O segredo não está na carne. Está no molho. Cada casa tem o seu, e ninguém o explica. É a discussão que nunca acaba no Porto.
Foi inventada por volta de 1952, n'A Regaleira, na Rua do Bonjardim, pelas mãos de Daniel David da Silva. Tinha andado pela França e pela Bélgica, voltou com a ideia do croque monsieur e acrescentou-lhe o que faltava: o molho. O resultado não tem muito a ver com o original. É melhor.
Todos têm razão de estar aqui. Alguns conheço há muitos anos, outros descobri mais tarde. Nenhum me desiludiu quando levei hóspedes.
Rua de Passos Manuel, 198 · Porto
Toda a gente que vem ao Porto ouviu falar do Santiago. Desde 1959, molho de receita de família que nunca foi revelada, pão de forno, linguiça e salsicha frescos todos os dias. A francesinha é grande e tende a desmanchar-se quando se corta. Para alguns é defeito. Para os habituais já faz parte.
Há dois espaços: a casa-mãe em Passos Manuel e outro na Praça dos Poveiros. Vão à original.
Rua de Santa Catarina · Porto
Pequeno, sem decoração, quase sempre com fila à porta. O menu é um só: francesinha. O dono fá-las há mais de 30 anos, a mulher serve às mesas. Molho picante, bife da rabada, porção certa. É o tipo de sítio que os portuenses conhecem de cor e que ninguém precisa de explicar.
Rua de Passos Manuel · Porto (frente ao Coliseu)
Fica em frente à Igreja de Santo Ildefonso, com os azulejos como fundo. Não é um sítio antigo, mas não tenta fingir que é. A francesinha usa alcatra, chega bem montada e bem quente. Têm versão vegetariana, o que resolve situações de grupo onde nem toda a gente come carne.
Rua da Alegria, 946 · Porto
O espaço tem uma identidade própria, mais cuidado do que o habitual. A francesinha é de bife fino, bem montada, com um molho que não assusta quem ainda não conhece o prato. É o sítio que costumo sugerir quando alguém me diz que nunca comeu uma francesinha e não sabe se vai gostar.
Rua do Campo Alegre, 191 · Porto
Cervejaria clássica, ampla, aberta até tarde. É o sítio para onde vou quando chego ao Porto a horas tardias e ainda quero comer uma francesinha como deve ser. Barulhento, cheio, serviço rápido. Não é a que mais me marca, mas nunca me deixou ficar mal.
Rua de Passos Manuel, 205 · Porto
Dois pisos, espaço para grupos, boa cerveja. Quando somos quatro ou cinco e ninguém quer complicar, mando-os para aqui. Fica no centro, é consistente, e nunca tive de pedir desculpa por ter recomendado.
Rua da Boavista · Porto
Na Boavista desde os anos 70. O molho do Cufra é mais denso e mais especiado do que a maioria — divide opiniões, mas tem os seus fiéis de sempre. É uma cervejaria antiga no bom sentido: espaço amplo, sem pressa, ambiente que já não se encontra muito por aí.
Porto
Em 2025 ganhou uma votação popular com mais de 15 mil votos. Paredes de pedra, vigas de madeira, e uma francesinha de bife do lombo que justifica a fama. Ao fim de semana há fila. Se conseguirem, vão a meio da semana.
Rua Pádua Correia, 273 · Vila Nova de Gaia
A única de Gaia nesta lista. A francesinha vai a forno de lenha — a carne chega com um toque fumado que mais nenhum sítio desta lista tem. A especialidade é com bife de lombo de boi mal passado. Servida em pratos de barro. Estacionamento do outro lado da rua.
Fica perto da Serpa Downtown Gaia. Vale combinar as duas coisas.
Rua do Godinho, 837 · Matosinhos
Foi aqui que comi a minha primeira francesinha. Tinha uns 14 ou 15 anos, fui com amigos da escola, e não estava preparado para aquele molho. Picante, denso, quente a sério. Não sei se hoje é a melhor francesinha de Matosinhos — essa discussão nunca tem resposta. Sei que continuo a associar o Requinte à primeira vez que percebi do que se trata. Tasca genuína, batatas fritas caseiras, molho com personalidade. Fica a dez minutos a pé da Serpa Beach House.
Não existe a melhor francesinha. Existe a da primeira vez. E existe a que escolhes quando queres mostrar Porto a alguém.
A francesinha não é um prato rápido. Não é para comer a correr entre dois planos. Reservem tempo, peçam um fino, e não planeiem nada para logo a seguir. Ficam avisados.
Uma francesinha com batatas fritas ronda as 1.200 a 1.500 calorias. Vão bem dispostos, com fome de verdade, e não marquem nada logo a seguir.
Se quiserem soar minimamente locais, não peçam uma cerveja. Peçam um "fino". Ou melhor ainda, um "fininho". É provável que arranquem um sorriso ao empregado. Super Bock, claro.
Os sítios mais procurados enchem ao almoço e ao jantar ao fim de semana. Algumas casas aceitam reservas, outras não. Vale a pena ligar antes.
A francesinha pode levar ovo estrelado por cima. É opcional. Eu peço sempre com ovo — para mim já faz parte da experiência. Mas ninguém vos vai julgar se não pedirem.
As casas ficam em Matosinhos e em Gaia — com duas das francesinhas desta lista a poucos minutos. Boa sorte a escolher qual.
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