Uma seleção curatorial dos edifícios que fazem parar e olhar duas vezes. Betão, luz e histórias que se contam nas paredes.
Sou arquiteto e o Porto é a minha casa. Estudei aqui e, para mim, a cidade é muito mais do que os postais: é betão, luz e histórias que se contam nas paredes.
Preparei este guia com os edifícios que me fazem parar e olhar duas vezes. Não são apenas os mais famosos — são os que me inspiram e definem o meu Porto.
Convido-te a sair da rota habitual e a ver a cidade pelo meu olhar. Bom passeio.
Obra I
Casa de Chá da Boa Nova
Leça da Palmeira · Álvaro Siza Vieira
Um exemplo sublime de como a arquitetura dialoga com a natureza. O projeto desenvolvido por Álvaro Siza Vieira parece ancorado aos rochedos de Matosinhos. A chegada ao edifício é uma coreografia de plataformas que nos preparam para a vista.
Lá dentro a atmosfera é uma paisagem afetiva. Ao descer a escada perdemos o mar de vista — apenas para o reencontrarmos pleno nas salas principais. As janelas que deslizam para o interior são um detalhe de mestria.
Dica de visita
Mediante reserva (restaurante).
A casa parece nascer das rochas — mais paisagem do que objeto.Obra II
Piscina das Marés
Leça da Palmeira · Álvaro Siza Vieira
Aqui a arquitetura funde-se com as rochas e o oceano. Esta obra de Siza revela a sua compreensão profunda do contexto. Descemos uma rampa que nos afasta da marginal e nos aproxima da praia, com muros altos que nos protegem do vento. Só no final, junto aos tanques, é que o horizonte nos é revelado.
Destaco o ângulo agudo do muro da cafetaria, que remete para Frank Lloyd Wright. É uma obra brutalista, sensível, e Monumento Nacional.
Dica de visita
Mediante marcação ou bilhete.
Vista aérea — o desenho dos tanques negocia com a linha da costa.Obra III
Casa da Arquitetura
Matosinhos · Guilherme Machado Vaz (reconversão)
Ao entrar na antiga Real Vinícola em Matosinhos sou transportado pelo contraste entre o passado fabril e a nova vida do espaço. Entramos através de um volume robusto de betão que nos conduz a um foyer cheio de maquetes — um deleite para quem ama o processo criativo.
Presto sempre atenção aos pequenos rasgos circulares no betão ao longo do percurso. São como lentes que revelam vislumbres do exterior, mantendo-nos sempre ligados à escala do lugar.
Dica de visita
Verificar exposições no site oficial.
A intervenção contemporânea negocia com o passado fabril sem o apagar.Obra IV
Terminal de Cruzeiros de Leixões
Matosinhos · Luís Pedro Silva
Este terminal é um ícone da marginal. O que mais me fascina é o revestimento de peças cerâmicas da Vista Alegre, que nos fazem pensar nas escamas de um peixe — e que ajudam a combater a erosão marítima.
O edifício é o ponto de encontro de três braços: um que recebe os passageiros do mar, um que segue pelo molhe sul, e outro que liga à cidade. No piso zero a luz zenital é a protagonista, pintando o interior de dourado ao final do dia.
Dica de visita
Visitas guiadas aos domingos.
A forma espiralada nasce do encontro de três braços de circulação.Escamas cerâmicas da Vista Alegre — função e ornamento ao mesmo tempo.Obra V
Parque de Serralves
Porto · Casa Art Déco · Museu de Álvaro Siza Vieira
Quando preciso de fugir à azáfama, este é o meu refúgio. São 18 hectares de diálogo entre história e contemporaneidade. Tudo começa na Casa de Serralves, um exemplar Art Déco, e estende-se num jardim formal que nos conduz até ao rio.
Gosto de explorar os recantos como o roseiral. O Museu de Arte Contemporânea, desenhado por Siza Vieira, insere-se aqui de forma silenciosa — provando que a arquitetura contemporânea pode conviver em harmonia com o legado do passado.
Dica de visita
Mediante bilhete.
A aproximação ao museu — os muros conduzem o olhar antes de o libertarem.Volumes brancos pousados na paisagem — Siza no seu registo mais sereno.Obra VI
Casa da Música
Porto · Rem Koolhaas / OMA
Esta obra divide opiniões — e para mim, essa é a sua beleza. Projetada por Rem Koolhaas, é um objeto disruptivo. Muitos turistas olham para ela e não sabem bem o que pensar, mas a verdade é que o edifício foi desenhado para ser vivido. Tudo gravita em torno da acústica.
É um motor de revitalização urbana, tal como o Guggenheim de Frank Gehry em Bilbau. Não fiquem pelo exterior — façam uma visita guiada para conhecer as entranhas desta obra.
Dica de visita
Recomenda-se visita guiada para o interior.
Um poliedro pousado na cidade — a forma como provocação.O pátio dos azulejos — Koolhaas faz uma vénia à tradição portuguesa.Obra VII
Casa das Artes
Porto · Eduardo Souto de Moura
Este projeto lançou Eduardo Souto de Moura logo no início da carreira. A obra situa-se nos jardins do Palacete do Visconde de Vilar d'Allen.
O que me fascina é o conceito de espaço feito pela negativa. O edifício não tenta ser um anexo ao palacete, mas sim uma peça autónoma com identidade própria. A mestria reside no diálogo intimista com o jardim e na materialidade do tijolo e granito.
Dica de visita
Acesso livre.
Pela negativa — o edifício torna-se quase secundário ao jardim.Obra VIII
Bairro da Bouça
Porto · Álvaro Siza Vieira
Para mim, este bairro é uma afirmação absoluta do direito à cidade. Obra de habitação coletiva de Siza Vieira, situada entre a Rua da Boavista e o metro da Lapa, funciona como um refúgio silente perante a inquietação urbana.
O projeto teve uma construção atribulada que só terminou trinta anos após o início. Aprecio a articulação cuidadosa das casas geminadas com as suas galerias e pátios — é uma lição de urbanismo que acomoda a vida de quem lá vive.
Dica de visita
Respeitar a privacidade dos residentes.
Habitação social como manifesto — Siza assumiu trinta anos para terminar.Obra IX
Mercado do Bolhão
Porto · Reabilitação concluída em 2022
Desde a reabertura em 2022, o Bolhão voltou a ser o coração da cidade. É um lugar que guardo no coração — antes do restauro, fazia parte da disciplina de desenho da faculdade passar horas aqui a desenhar o movimento lá dentro.
O maior desafio foi preservar a memória sem a apagar. Adoro a forma como a identidade visual se funde com os azulejos tradicionais, e como os corredores têm nomes que evocam a nossa essência: Saudade, Alegria, Encontro, Abraços.
Dica de visita
Acesso livre.
A fachada Beaux-Arts — devolvida à cidade com nova vida.Interior do Bolhão — preservar a memória sem a apagar.Por
Mário Marques
Arquiteto e anfitrião da SerpaHouses. O Porto é a minha casa — e estes são os edifícios que me fazem voltar.
Estás à procura de onde ficar?
Alojamentos próprios em Gaia e Matosinhos — perto das obras que acabaste de descobrir.